Há textos ou poesias que me ficaram associados a certas pessoas. Corre-se nesses casos, por vezes, o risco de a parte mais importante da nossa leitura não ser a do texto ou poema em si mesmo e se nos impôr, involuntariamente, o contexto externo associado.
Não é, felizmente, o caso do poema que a seguir transcrevo. Aprendi a gostar imenso dele numa aula prática de Teoria da Literatura de David Mourão-Ferreira. A sua análise minuciosa, naquele seu jeito tão próprio e tão expressivo que como em teatro nos deixava suspenso de cada parte de uma sua frase, abriu-me portas e avenidas não só para ele, mas também para a Poesia.
"TEATRO DA BONECA"
"A menina tinha os cabelos louros.
A boneca também.
A menina tinha os olhos castanhos.
Os da boneca eram azuis.
A menina gostava loucamente da boneca.
A boneca ninguém sabia se gostava da menina.
Mas a menina morreu.
A boneca ficou.
Agora também já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.
E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.
A boneca abre as tampas de todas as malas.
A boneca arromba as portas de todos os armários.
A boneca é maior que a presença de todas as coisas.
A boneca está em toda a parte.
A boneca enche a casa toda.
É preciso esconder a boneca.
É preciso que a boneca desapareça para sempre.
É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.
A boneca.
A boneca."
CARLOS QUEIROZ

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