"Qualquer reforma no bailado necessita partir do próprio bailado, levando-se em consideração seu desenvolvimento até então. Em sua revolta, Isadora Duncan desprezou o elemento técnico do bailado clássico, mas seu mvimento não visava a modificá-lo e sim ignorá-lo totalmente, eliminá-lo, e o resultado dessa atitude foi que a sua técnica improvisada e pobre não pôde perdurar como meio altamente elevado de expressão.
Hoje a crítica especializada, representada por altos valores como Arnold Haskell, André Levinson ou Serge Lifar, é acorde no pronunciamento de que o sucesso de Isadora Duncan não passou de um êxito pessoal, embora lhe seja irrestritamente reconhecido o valor da iniciativa como agente moificador da directriz espiritual do bailado dito clássico.
O movimento Duncan, embora pretensamente baseado na dança grega, não se ligava realmente à tradição do bailado e, portanto, foi reduzido a um movimento marginal, do ponto de vista da contribuição técnica. Foi "externo" quando, para ser duradouro, deveria ter partido de dentro para outra direção qualquer. Esse fato deixou bem claro que qualquer reforma técnica do balé só poderá ser baseada no ecletismo e não na ignorância total dos princípios acadêmicos. Mostrou-nos também que cinco séculos de pesquisas não podem ser desprezados nem substituídos por uma improvisação que, embora genial, após o calor da repercussão como novidade virá mostrar fatalmente extrema indigência.
É claro que essa consideração não pode ser estendida ao movimento "idéia", à inovação do que há de subjetivo no balé, pois há aí uma unidade absoluta, e toda a iniciativa revolucionária pode vir a mostrar-se como força capaz de conseguir seu objectivo. Foi o que aconteceu com a influência salutar que sofreu o balé clássico, tocado pela diretriz expressionista do movimento Duncan. Entretanto - e deve ser sublinhado novamente - para servir no terreno das idéis, é necesária a modificação técnica do balé, faz-se mister executar uma verdaeira modificação , ou seja, a reforma técnica partindo dessa mesma técnica, levando-a em consideração."
KLAUS VIANNA
(Klaus Vianna, "A Dança", summus editorial, São Paulo, 2005)

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