"Eram quatro e meia da tarde de ontem quando os 15 bailarinos, que se encontravam no estúdio do Ballet Gulbenkian (BG) a ensaiar uma nova criação para a próxima temporada 2005/2006, se depararam com a presença do director de Serviço de Música, Pereira Leal. Ninguém supunha o que os aguardava. Um dos elementos presentes contou ao DN que Pereira Leal começou a ler o comunicado do Conselho de Administração (CA) em que era anunciada a extinção da companhia, mas a emoção impediu-o de continuar. Teve de ser o director adjunto, Rui Vieira Nery, a lê-lo até ao fim. A partir daquele momento, o BG desaparecia, sendo cancelados todos os espectáculos.
Os 15 bailarinos presentes entraram em "estado de choque" com a notícia. "A nossa reacção? Chorámos e assim continuamos, a chorar. Ainda não acredito", conta ao DN o bailarino Romeu Runa, que recentemente recebeu o Prémio Almada, de consagração.
Meia hora mais tarde, o documento seguia para as redacções, sem comentário da instituição. O comunicado do CA da Fundação, além de anunciar a extinção da companhia, criada há 40 anos, enuncia várias "modalidades alternativas" para apoiar a dança.
O documento de duas páginas sublinha que o panorama da dança se tem alterado profundamente, fazendo um diagnóstico, em que sublinha várias "necessidades" garantia da boa qualidade profissional dos bailarinos, experiência de iniciação e coreografia e ainda o facto de públicos de fora de Lisboa e Porto terem direito a usufruir de produções de qualidade.
Em "substituição" da companhia, a fundação prefere, entre outras iniciativas, instituir bolsas para o estrangeiro, fazer acções de formação, contribuir para a interna- cionalização da dança contemporânea portuguesa e convidar companhias nacionais. A extinção do Ballet "deverá estar concretizada até Agosto de 2006", lê-se no documento, em que se adianta que o CA "entendeu também cancelar todos os espectáculos de dança que se encontram programados". O contrato dos colaboradores da companhia cessa, mas fica assegurado "um tratamento compensatório significativamente mais vantajoso do que decorreria do mero cumprimento das obrigações laborais que impendem sobre a fundação". Os colaboradores que desejem criar a sua própria companhia, esclarece o documento, poderão usufruir de "um esquema de apoio".
Segundo o DN apurou, deverão ser directamente atingidos entre 20 e 30 bailarinos residentes, portugueses e estrangeiros, não devendo a extinção do Ballet afectar os técnicos de palco. O DN tentou contactar o actual director artístico, Paulo Ribeiro, mas tal não foi possível até ao fecho desta edição.
A ideia vem de longe, como lembrou Olga Roriz (ver depoimentos), podendo ler-se esta intenção em entrevistas, nomeadamente de Sá Machado. Em 1994, ao DN, o falecido administrador perguntava-se "(...) Deve ser a fundação a responsabilizar-se pela propriedade e gestão das companhias [Ballet e Orquestra]?" A seu ver, acrescentaria em 1988, estes dois agrupamentos, só deveriam continuar enquanto fosse possível "compatibilizar o grau de excelência requerido com a tolerabilidade dos custos".
Era então salientado pelo responsável que tanto a Orquestra como o Coro e o Ballet Gulbenkian tinham despesas consideradas "muito elevadas". "
(Lido em: "Diário de Notícias", 6 de Julho de 2005)

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