Hoje é noite de S. João, a festa mais popular da cidade do Porto. Lá nascido, só uma vez em toda a vida nela participei. É na verdade uma festa fabulosa. Quase se poderia dizer que todos os habitantes da segunda maior cidade portuguesa vêm para a rua festejar esta noite em que não há diferenças. O ano passado fiquei agradavelmente surpreendido por ter descoberto que as festas juaninas, alargadas a mais do que uma noite, continuam do outro lado do Atlântico com enorme vitalidade. São lá, porventura, a herança folclórica festiva mais positivamente aceite. Daí esta notícia:
"MAIOR SÃO JOÃO DO MUNDO"
"Patrimônio do povo"
"Pernambuco, e Campina Grande, na Paraíba, mantêm uma rivalidade que envolve o título de "Maior São João do Mundo". Nesta época do ano, as duas cidades são tomadas de turistas que desejam entrar em um grande "arraiá", cair no forró e se deliciar com as comidas típicas do período. Outras cidades nordestinas, como Aracaju e São Luiz, também abrigam festas juninas de grande visibilidade. Mas este não é o caso das cidades cearenses, que não figuram nesta vitrine. E aí surge uma pergunta: o Ceará tem tradição nos festejos de São João?
O professor Gilmar de Carvalho, um estudioso da cultura popular, defende o Ceará como um Estado de tradição nas festas juninas. "Nosso São João nunca morreu. É muito forte no interior e na periferia de Fortaleza". O cineasta Rosemberg Caryri, outro conhecedor da cultura popular, faz coro ao professor. "O Ceará sempre teve boa tradição junina". Os dois atribuem a maior visibilidade do São João de Caruaru e Campina Grande não à cultura, mas aos investimentos públicos realizados e à incorporação dos festejos pela indústria do turismo.
O São João de Caruaru e Campina Grande, conforme Gilmar de Carvalho, é fruto de políticas públicas, que dão suporte à festa. "As duas cidades têm a visão do turismo junino. As pessoas recebem chapéu de palha no aeroporto, os trens são reativados para levar turistas da capital para a festa. Então, o sucesso é resultado de investimentos", avalia. Segundo ele, no Ceará, existe a tradição do São João, mas não o interesse de investir no festejo. "O governo talvez ache o São João um evento anacrônico. Nossas elites talvez se achem 'muito modernas' para valorizar o arraiá", ironiza.
A badalação de Caruaru e Campina Grande não empolga Rosemberg Caryri. "O que vem acontecendo, lá, é a transformação de festas populares em grandes eventos turísticos e econômicos. Por um lado, tem importantes ganhos financeiros, com benefícios para o setor de serviços e o comércio. Por outro, acontece a descaracterização, que vai tirando qualquer sentido mais profundo destas festas", conclui. A referência de festa junina, para Rosemberg e Gilmar de Carvalho, está no Maranhão, com o bumba-meu-boi.
Mas o caráter popular, segundo eles, também está no São João cearense, embora sem a dimensão do que se contempla no Maranhão. Para Gilmar de Carvalho, a tradição dos festejos no Ceará manifesta-se de várias maneiras, como no costume de acender fogueiras. "Esta tradição continua muito viva, principalmente na periferia da capital e nas cidades do interior do Estado. Nesta época do ano, em Juazeiro do Norte, muitos bairros ficam tomados de fumaça. Em Fortaleza, as fogueiras também continuam sendo queimadas, mas não espere encontrar uma delas em ruas como a Leonardo Mota, na Aldeota", diz o professor.
Entre as comemorações juninas no Ceará, Rosemberg destaca a festa do Pau da Bandeira, em Barbalha. Mas sem deixar de fazer ressalvas: "Já foi melhor. É um espetáculo de rara beleza, mas que começa a se transformar em um evento burocrático, ficando mais empresarial e chato". Em nome do turismo, segundo ele, a festa vem se transformando em um grande show, com a participação de bandas baianas. .
Enquanto perde força a festa do Pau da Bandeira, ganha visibilidade o São João de Maracanaú, na Região Metropolitana de Fortaleza.
Este ano, o município criou uma cidade cenográfica, montou grande estrutura, está oferecendo muitas atrações musicais e vendendo seu festejo como um dos maiores do país. (DL) "
(Lido em: Diário do Nordeste, 23 de Junho de 2005, Fortaleza)

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