Dia de solstício e cem anos depois do nascimento de Jean-Paul Sartre, com a devida vénia, tanscrevo texto lido hoje em O Povo:
”Jean Paul Sartre é um dos pensadores que se preocupou de tratar filosoficamente a transposição da idéia de homem como ser teórico, sujeito transcendental, abstrato para sua compreensão como ser-no-mundo, finito, fático, experiencial e indeterminado. Nessa perspectiva fenomenológica-existencial, o ser passa a está compreendido como nada.
O ser como aparência, fenômeno, não no sentido daquilo que esconde, mas justamente ao contrário, ser como aquilo que é capaz de manifestar a si mesmo. O ser como nada se distancia da concepção de ser como princípio de identidade, como causa, como representação conceitual, como encontro sujeito-objeto, mas sim, como uma proximidade entre vida e mundo; é um habitar, um está próximo que recusa as funções, os padrões, as determinações em favor da possibilidade de construção (que remete ao sentido de autonomia de escolha) e de fundação (que remete ao sentido de ação livre e responsável).
Nada significa que a existência refere-se a possibilidade, a cisão, portanto, que o sentido do homem provém dos procedimentos de negação e interrogação e do processo de desagregação. Em outras palavras, o sentido emerge da vida vivenciada e não do mundo das idéias; é por não saber qual o seu destino e por não poder atribuí-lo a ninguém (família, outras instituições, nem a Deus) que o sentido do ser deslancha manifestando-se como escolha, aparecendo nas relações, num estilo de vida, no engajamento.
Sartre ressalta o significado de engajamento ligado ao agir como tentativa de estar permanentemente descobrindo as condições de existência humana. A existência não é um estado, mas um ato. Etimologicamente, existir significa partir daquilo que está (ex) para estabelecer (sistere) algo, ao nível do que antes era apenas possível. Portanto, existir é ultrapassamento; é está-aí, estando em situação e em relações com o mundo e os outros, bem como, só é possível existir à medida que o humano vai se realizando livre e responsavelmente.
É com esse agudo sentimento de fazendo-se a si mesmo e ao mundo que para o pensador francês existencialista, o homem não pode permanecer no estado da especulação desinteressada e do diletantismo, mas ele está instigado a vivenciar o drama de inventar-se e inventar a vida de modo comprometido.
O engajamento comprometido refere-se a atitude de escolher ou não-escolher participar de algo, mesmo assim, essa pessoa participa. Por quê? Porque aquilo que é feito ou não-é-feito é uma escolha, uma vez que em cada escolha realiza-se mais que a linha específica de ação, mas concomitantemente escolhe um estilo de escolha, pois ao optar, opta-se por uma definição da própria vida. A escolha torna público que espécie de pessoa estou fazendo de mim. Ao escolher tal opção ou atitude, estou simultaneamente escolhendo a espécie de humano que sou, a espécie de vida que levo e a espécie de mundo que vivo. Caso o indivíduo se abstenha da tarefa de escolher, mesmo assim, efetiva uma escolha, que também é uma forma de se comprometer. Por outro lado, em conseqüência do comprometimento pessoal, cada um se compromete além do que deseja imediatamente.
Assim, a minha responsabilidade em escolher é enorme, porque qualquer que seja a escolha, está situada numa condição original, pois não há atos gratuitos ou sem significação. Não há atos gratuitos porque a cada instante de escolha eu me desvelo, mesmo a escolha pela indiferença ou pela parcionalidade, porque eu estou escolhendo um mundo, o meu mundo e isso é assunto meu. Não há atos sem significação porque a escolha é sempre escolha de algo, mesmo que seja uma não-escolha, ainda assim estou escolhendo, uma vez que não sou livre para não-escolher, pois a escolha é uma escolha como possibilidade de sim ou não, mas nunca uma escolha da não-possiblidade.
Cada indivíduo se descobre livre na solidão da escolha, além do mais ninguém pode escolher por mim, sob pena de não ser mais um ato de minha escolha. Portanto, as minhas derrotas são tão humanas quanto as minhas vitórias. Nessa solidão da escolha, angústia é o sentimento constitutivo da existência. A escolha entre x, y, z é a realização do autoprojetando humano.
A liberdade de escolha implica a responsabilidade e intencionalidade da inteireza de cada conduta humana, pois manifesta a maneira de cada um doar sentido, significado ao real; ao mesmo tempo em que elucida o seu existir no mundo.
Mas as pessoas para não se confrontarem com a angústia de seu modo de engajar-se, caem na dissimulação, na representação, no auto-engano nos mecanismos de fuga (mentira e má-fé); os quais buscam justificativas insuficientes e infundadas, que não convencem nem a quem explica.
Todavia, Sartre ao pensar e vivenciar o engajamento não o propõe como modelo de ação humana, apenas pretende sugerir que as pessoas reflitam:
Em que as minhas ações correspondem às conseqüências das minhas atitudes?
Em que sentido estou colocando a minha inteligência, saberes e atitudes a serviço da coragem de decidir, de posicionar-me de fazer?
Ora, se o que a gente leva da vida é a vida que a gente leva. Então, o que e quem eu estou me tornando na minha vida?
O que minha conduta me mostra de meu projeto e da minha maneira de expressar-me humano?
A fenomenologia existencial sartriana foi concebida como uma filosofia de jovens revoltados por natureza, porém, compreendo que é uma filosofia da descoberta da condição humana, que aparece a todo o momento em que cada um se dá conta de sua existência finita e tem a tarefa inalienável e responsável de cuidá-la. “
ELIANA SALES PAIVA
”( Eliana Sales Paiva é coordenadora do Grupo de Estudo sobre Sartre e professora adjunta da Uece) “
(Lido em: O Povo, 21 de Junho de 2005, Fortaleza)
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