"Mahi Binebine vive entre Marraquexe, Madrid e Paris. Está representado nas colecções permanentes do Guggenheim Museum of New York, do Musée de Marrakech, da Fondation Kinda, da Société Générale Marocaine des Banques e do Banque Commerciale du Maroc. Mas este marroquino é também autor de diversos livros traduzidos numa dezena de línguas - nenhum em português - alguns premiados com galardões internacionais.
Sobre o êxito da sua carreira, o pintor e escritor considera que, "como sempre, há uma grande dose de sorte ou azar." Durante os seis anos que viveu nos Estados Unidos - três em Nova Iorque e outros três em East Hampton - conheceu "uma mecenas que gostou do trabalho e defendeu-o junto dos que fazem a chuva e o bom tempo no universo muito fechado da arte." Resultado: "De um dia para o outro encontrei-me a caminhar lado a lado com os maiores."
Mahi vai finalmente expor em Portugal, mas para o ver temos de aceitar um convite: ir a Silves. É a primeira vez que expõe no nosso país, e afirma-se "feliz" porque há vários anos que aqui passa férias, tem cá "inúmeros amigos" e gosta "do carácter acolhedor dos portugueses."
"Em Paris nós tínhamos um grupo de vários artistas que ia jantar todas as noites ao 'Chez Albert', um restaurante português na Rua Mazarine, no Quartier Latin. Eu gosto de vinho verde e de bacalhau à Brás."
Mas assim como os artistas de Marrocos são desconhecidos em Portugal, também os nossos artistas são muito pouco conhecidos no seu país.
"Para além de Vieira da Silva, eu próprio tenho vergonha da minha ignorância."
PESSOA EM MARRAQUEXE
Para dois países tão próximos geográfica e historicamente, é difícil entender um tão grande desfasamento das suas artes e culturas.
"Nós conhecemos um número muito maior de artistas franceses e espanhóis porque os seus países têm políticas de cooperação muito desenvolvidas", explicou. "Há um centro cultural francês em cada grande cidade do meu país. Os institutos Cervantes também." Para quando um centro Pessoa em Marraquexe? Mahi suportou-se no poema de Pessoa baseado na antiga frase de Pompeu "navegar é preciso" para defender: "Navegar é urgente".
VINGANÇA CONTRA A DESUMANIDADE
Descreve-o quem o conhece como uma pessoa afável, de trato agradável, mas o seu trabalho nem por isso revela uma interioridade pacificada.
As suas expressões escrita e plástica evidenciam uma carga de matiz político, de alerta, de defesa do direito humano, de partilha de dor com quem sofre Denunciam a mágoa da miséria, a angústia do emigrante ilegal que procura o 'el dorado' europeu, a tragédia que se abateu sobre os que se opuseram à opressão de Hassan II, anterior rei de Marrocos, incluindo as penas passadas pelo seu irmão Aziz, 18 anos preso numa microcela no deserto, sem ver a luz do dia.
"Orgulho-me de pensar que os meus escritos, tal como as minhas pinturas, são uma espécie de vingança contra a desumanidade, tanto mais que estes meios de vingança são de ordem estética", afirmou Binebine. "Eu uso as palavras e as cores como essas 'armas miraculosas' de que nos fala Aimé Césaire nos seus poemas."
A resistência de Mahi, no seu trabalho, não é apenas política. Os artistas contemporâneos recorrem cada vez mais a outras formas de expressão para além da pintura, mas "alguns continuam a resistir" - referiu.
"Penso que nos estamos a afastar cada vez mais da pintura. A fotografia, o vídeo, as instalações de todos os géneros ganham vantagem sobre o pincel e a velha paleta", afirmou.
A ARTE PERDEU A AUDÁCIA
Muitas pessoas, para Binebine, estão desorientadas, mas "também as havia no início do século passado com a criação da arte moderna", e por isso considera que só o tempo julgará as obras que são hoje feitas.
"A arte tem sobrevivido a grandes turbilhões e atravessa actualmente uma zona de turbulência. Mais uma vez, só o tempo é juiz."
"Perante a História, a arte é, em primeiro lugar, a Europa. A América é antes a perícia", opinou Mahi. "É uma sociedade eficaz, com uma língua eficaz, que tem sabido acolher o talento. Qualquer que ele seja. Venha de onde vier. Que tem sabido assimilar esta energia positiva como uma espécie de vitamina. Se há uma supremacia actualmente, é também porque a Europa se tem mostrado mais frívola, menos audaz. Uma Europa que tem querido ser uma imitação, correndo o risco de perder a sua alma."
Nas suas obras "há uma relação complementar entre a pintura e a escrita".
"Quando escrevo, por exemplo, um livro sobre os emigrantes clandestinos que tentam atravessar o estreito de Gibraltar para atingirem a Europa, o meu universo plástico é frequentemente ocupado por uma patera (vaso sacrificial romano), de cadáveres suspensos, de canibais (título de um romance) Quando pinto, começo por delinear a superfície de um personagem e depois procuro penetrá-lo, ver o que há no seu íntimo. Ao escrever, eu entro repentinamente no íntimo do personagem, isto é, na plenitude dos seus sentimentos, para lhe restituir uma imagem. Portanto, entre a pintura e a escrita, há um movimento de vaivém que considero muito interessante."
OBRAS A 4 MÃOS
Mahi Binebine licenciou-se em Matemática, e ensinou esta disciplina, durante dez anos, em Paris."A matemática ensina um rigor indispensável a toda a actividade criativa. Aprende-se a partir de um ponto A para chegar logicamente a um ponto B, deslocando-nos num espaço onde enfrentamos contrariedades. Um romance, é isso. Uma pintura, por muito abstracta que seja, obedece às leis do equilíbrio. Qualquer artista sabe isto."
O pintor e escritor desenvolve a sua obra entre Paris, Madrid e Marraquexe. Sente "pertencer a esta república internacional das artes e das letras" - explicou.
"Trabalhei, além disso, com um artista espanhol, Miguel Galanda, com quem, durante três anos, pintei quadros a quatro mãos", contou. "Foi uma experência que começou como um jogo, mas que nós não conseguimos travar senão recentemente. Foi-nos necessário viver algum tempo em Madrid, e depois em Paris. Expusemos os nossos trabalhos um pouco por todo o mundo. Separámo-nos porque a aventura tornou-se difícil de gerir para as nossas famílias."
PINTAR COM PAIXÃO
Mahi Binebine nasceu em Marraquexe em 1959, numa casa da Medina no quarteirão de Riad Zitoun. Oriundo de uma família numerosa de sete irmãos foi a mãe quem se ocupou da sua educação, na ausência do pai, jogral do rei Hassan II."
"Nuno C. Cunha"
(Lido em : Correio da Manhã, 26 de Junho de 2005)
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