“ FESTIVAL Riso sem fronteira
O calor humano sob as lonas do circo é inversamente proporcional ao vento frio que recepciona nativos e visitantes no I Festival dos Inhamuns de Circo, Bonecos e Artes de Rua
Ethel de Paula da Redação
[26 Maio 01h05min 2005]
A graça passa pelos Inhamuns. Chega montada em perna-de-pau, equilibrando malabares, dando cambalhota, cuspindo fogo, brincando reisado, vestida de mamulengo e com nariz de palhaço. Tauá, Arneiroz e Crateús são territórios da alegria desde o último domingo, início do I Festival de Circo, Bonecos e Artes de Rua da região. Sob lonas de circo, em chão de terra batida, o público local disputa cadeiras e improvisa assentos para rir do que vem de perto e chega de longe, o Ceará moleque dividindo atenções com gaiatos de Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Argentina e França. Na língua das crianças que cercam o picadeiro todas as tardes e noites, os franceses viraram os ''franciscos'', tamanha é a força de aproximação do riso, capaz de detonar fronteiras geográficas e culturais.
''Eu só conhecia reisado, mas teatro mesmo não. Boneco assim se mexendo e falando que nem gente também nunca tinha visto. É coisa pra ficar besta, igual menino, sabe?'', descreve a agricultora Sônia Liduína que, com um filho no colo e outro pegado pela mão, fez, contente, uma hora de caminhada do bairro onde mora, Cidade Nova, até o circo armado próximo ao centro da cidade de Tauá. Na noite da última terça-feira, ela viu a Corpos Academia (Tauá) dançar Os Saltimbancos, riu com Cenas de Rua do Grupo Formosura (Fortaleza), assistiu ao Casamento de Tambarim encenado pela Trupe Matamorfose (Itapipoca), embasbacou diante da vitalidade de mestre Zé Augusto, do Assentamento Cachoeira do Fogo (Independência), que fez ''miséria'' com seu trancelim de perna, o sapato bico fino riscando o chão e levantando poeira. Verdadeiro desafio para os brincantes do próprio grupo, vestidos elegantemente com ternos sem gravata combinados a máscaras de papelão e arranjos de flores coloridas sobre as cabeças. No ritmo contagiante da sanfona, triângulo e zabumba, o público acompanhou a brincadeira na palma da mão, marcando a entrada do boi.
''É bom esse forrozim. Eles são os caretas, né? No reisado tem a burrinha também, conheci porque minha tia já tinha me levado pra ver um lá em Juazeiro do Norte'', empolgou-se o estudante Raimundo Nonato, 13. Aluno da 6ª série da escola de ensino fundamental Dondom Feitosa, ele é do ramo: em Tauá, faz parte do grupo de teatro Faces, ligado ao programa integrado AABB Comunidade. ''Gosto do teatro porque deixa a gente mais comunicativo. Uma vez, fiz o Pinóquio, foi o personagem que mais gostei. Mas foi só pro pessoal da escola. Um dia quero me apresentar pra um monte de gente como tem aqui e viajar pra todo canto'', planeja. O sonho que Nonato sonha é a realidade da Cia. Riso Ambulante de Brasília (DF), formada por quatro artistas de rua que chegaram a Tauá a bordo de um fusca cujo pára-choque, enfeitado com gravata de papelão e nariz de palhaço, diz, por si só, a que veio. É sobre quatro rodas que o grupo viaja o Brasil fazendo pilhéria e mágica, a rua como palco.
Assim, o trio nascido em Brasília virou quarteto em Juazeiro do Norte, Cariri cearense. Thiago Bressane, Robson Siqueira e Aloísio Augusto, da Carroça de Mamulengos, crias de Mestre Zezito, juazeirense que faz escola no Distrito Federal, estão há seis meses na cidade-natal do professor dileto, agora integrados à União dos Artistas da Terra da Mãe de Deus. Lá, conheceram José Nilton, palhaço-artesão que, além de fazer graça, passou a responder por parte do figurino do grupo: são obras dele os desproporcionais sapatos de palha e couro usados pelos palhaços experts em reciclagem. ''Aquela região é rica em mestres populares e é com eles que queremos aprender. Largamos a faculdade e a academia por entender que aprendemos mais sobre a cultura do camelô e as brincadeiras esquecidas na rua, em trânsito'', adianta Thiago, minutos antes de ''ganhar'' Tauá com o palhaço Baleiro. Sobre pernas de pau, empunhando bonecos gigantes e entoando cantigas de roda que resistem no imaginário coletivo, os quatro mambembes celebram o teatro tradicional brasileiro em troca de quase nada. ''Quando não há como cobrar cachê, simplesmente pedimos quilos de alimento'', segredam. Apertados dentro do fusca, cenário amarrado ao bagageiro, seguem de Tauá para duas apresentações no Sesc-Crato. Para os desgarrados, imperativo é o permanente estado de deslocamento.
Do público, vem a paga. A criançada que canta junto, imita mungangos e interage entre gritos e gargalhadas, caboetando os inimigos dos palhaços, não quer ir para casa. ''Já vai dar meia-noite e acho que vou ter que levar menino aqui a pulso pra casa'', avisou a dona de casa Maria das Graças, cercada pelos seus e mais três filhos da vizinha. Do lado de fora, mototaxistas comemoravam: a demanda do festival garantiu ganhos extras. ''Já fiz bem dez viagens de cinco horas da tarde pra cá. São quase meia-noite e se durar madrugada adentro a gente vai ficando'', prontificou-se Adelino Feitosa, que não se furtou em brechar as apresentações entre uma corrida e outra. “
(Lido em "O Povo", de 26 de Maio de 2005, Fortaleza) |
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