“ Um dos rasgos distintivos dos compositores vanguardistas soviéticos é a vivência espiritual que têm da música, unida a uma atitude estética muito próxima de “l’art pour l’art”. Palavras como beleza, transcendência, mistério, inacessível estão presentes no discurso de todos os compositores soviéticos que se negaram a obedecer às directrizes oficiais em matéria musical. A simplicidade e o silêncio são, ainda, uma parte substancial da sua música. O espiritualismo (para além de ser uma tradição de que também fazem parte autores como Scriabin, Stravinski ou Rachmaninov) foi também uma resposta a algumas das questões levantadas pela crise do pensamento ocidental que explodiu em 1968, que também foi, à sua maneira, adoptada no Ocidente por autores tão diferentes como Stockausen e Cage, entre outros.
Todos esses elementos contribuíram para distinguir a música dos “dissidentes” das enfáticas arengas musicais decretadas desde a União de Compositores Soviéticos, criando um especial mundo, cheio de mensagens codificadas com que, na era soviética, comunicavam aqueles que eram críticos em relação ao regime.”
TERESA CASCUDO
(Em: Svetlana Poliakova, Ivan Moody, Cristina Fernandes, Teresa Cascudo, Música Russa – um breve panorama, Público – Centro Cultural de Belém, Lisboa, 2001)
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