“O fotógrafo desembarca em qualquer povoação do continente africano e aí está a instantânea multidão exibindo as mais afectadas poses e reclamando querer “sair” na foto.
A expressão é apropriada: saindo na foto, aquela gente emigra da sua solidão histórica. É como se visitasse outros mundos por via do papelinho impresso. A inevitável pose resulta do namoro entre o ser e a sua própria imagem. Sim, a pose: só quem não assistiu aos afazeres do fotógrafo em terra africana desconhece essa excessiva afectação, a postura a um tempo ingénua e provocadora. Depois, quando os sais de prata devolvem a encenação do corpo, só o riso defende os que em imagem foram capturados. Nessa aprendizagem de si mesmos, rir á a única resistência contra a usurpação da alma. Todo este deslumbramento confere ao fotógrafo o estatuto demiúrgico dos que, ao focar este mundo, estão observando outras realidades.”
MIA COUTO
(Mia Couto, Pensatempos, Caminho, Lisboa, 2005)

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