A morte de um amigo é
uma coisa terrível. O coração como que se
despedaça, o azul do céu vira cinza, as folhas das
árvores esmorecem, há um enorme aperto no peito, uma
dor imensa no ventre.
Ontem meu irmão
enviou-me um email dizendo que o Dr. Abel Portal falecera a 24 de
Dezembro. Era um meu grande Amigo. Amigo de meus pais, o Dr. Abel
Portal foi desde a minha tenra idade o meu modelo de pessoa. Teria
uns três ou quatro anos quando me perguntaram o que é
que eu queria ser quando fosse grande. Referiam-se naturalmente à
profissão. A minha resposta terá sido, repetidamente,
já que a achavam tão sui generis: Dr. Portal. Ele
sempre constituiu para mim ao longo de quase toda a vida o que de
nela há de bom. Aristocrata, cirurgião emvários
hospitais, director do Hospital de Matosinhos, muito moderno, de uma
grande simplicidade de tratamento, desportista (foi director do
F.C.Porto), Senhor da Quinta da Costeira em Carregosa, que herdara,
via seu Pai, do tio-avô bispo-conde de Coimbra, muito culto,
casado com D. Edith, alemã de uma simpatia inacreditável
(por intermédio dela, a sugestão dele, passei um mês
em casa de primos em Solingen para aperfeiçoar o meu alemão),
era tudo o que eu queria ser. Acima de tudo, um homem bom. Longe
estava eu nesse tempo de imaginar que muitos anos decorridos, antes
de depois da morte de meu pai, ele e D, Edith se tornariam meus
grandes amigos e até confidentes em período difícil.
No dia a seguir ao funeral de minha Mãe, recebi um telefonema
do Dr. Abel Portal na minha casa, agora dominada pelo vazio e o
silêncio. “Venha até aqui à quinta lanchar,
venha passar umas horas connosco”. No momento exacto, no momento em
que mais precisava de estar entre amigos, como que por magia, ele
pensara em mim e me convencera a estar dentro da família dele.
Há poucos anos recebi dele uma longa carta manuscrita que
guardo como relíquia. É um texto pungente, inteligente
e belíssimo de um pai sobre a morte de um filho. A morte do
João, seu filho mais velho, que se tornara de todos os seus
filhos aquele que mais estava ligado a mim, já que
coincídiamos na idade e no facto de sermos ambos
primogénitos. Ontem foi a vez de eu, com mais de um mês
de atraso, já que no estrangeiro, ter a tristíssima
notícia da morte do Dr. Abel Portal. Esta noite fiquei horas
acordado enquanto imagens do que de bom tenho como recordação
desse homem extraordinário. Homem honesto que resistiu a
enormes adversidades. Há muitos anos, quando roubado por um
sócio estrangeiro frequentador da mais alta finança do
Norte, que fugiu para o estrangeiro com o dinheiro da grande empresa
de ambos, deixando-a em situação financeira terrível,
perante as garras penhoradoreas desses mesmos banqueiros que eram
frequentadores das festas exuberantes oferecidas pelo então
sócio, disse um dia a meu Pai: Embora não tenha sido
culpa minha, hei-de pagar tudo até ao último centavo.
Fê-lo, redobrando as suas actividades médicas. Com o
suor do seu rosto. Ele era assim. E já não é
mais. A morte, essa inexorável outra face da vida, privou-me
de o voltar a ver, de gozar da sua companhia.
Esta noite, há
pouco mais de uma hora telefono para casa de um amigo cearense.
Notara-o hoje triste. Tinha razão para estar,soube agora.
Desabafou e chorou ao telefone a dor imensa que o invadia desde há
dois dias pela morte de um amigo. Um amigo bom, também. Com
dezanove anos somente. A dor imensa com que comecei a escrever este
pequeno relato refere-se ao que do outro lado da linha durante mais
de uma hora ouvi e senti na voz e nos soluços dele. E na
recusa em acreditar que esse amigo já não existisse. Na
vontade de o voltar a abraçar. Na dor de não lhe ter
telefonado. No desepero de pensar que um telefonema, ou algo de outro
poderiam ter evitado o rumo do destino trágico. E as duas
dores confundiram-se numa mesma profunda tristeza. Coincidentemente
este amigo inconsolável pela morte de seu amigo foi o mesmo
que no dia 24 de Dezembro me telefonou por duas vezes e me convenceu
a ir passar essa noita de Natal a casa dele e dos pais, o que fiz. A
noite em que, sem eu saber, morria lá do outro lado do oceano
o meu grande Amigo Dr. Portal.
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