Ouvi esta tarde em directo na 2: as declarações do Prof. Dr. Marcelo Rebelo de Sousa perante a AACS. Foram declarações claras. No seu semblante, porém, perpassou sempre uma expressão de tristeza. É difícil de imaginar o que lhe ia na alma. Por um lado estava a sua honra como pessoa, como homem da comunicação social e como político. Como cidadão. Por outro, havia a consciência de que para repor a verdade a que um amigo de longa data faltara quando quebrou um acordo de cavalheiros sobre a não revelação do conteúdo de conversa entre eles havida estava a entrar num campo extremamente doloroso, o do conflicto entre a verdade e a amizade. Conheço bem o carácter do Prof. Dr. Marcelo Rebelo de Sousa. Conheço bem a dedicação que sempre teve ao partido político que ajudou a fundar, o então Partido Popular democrático, mais tarde rebatizado em Partido Social Democrático. Conheço bem o seu amor à democracia em Portugal. Em Junho/Julho de 1974 fiz parte da primeira comissão organizadora da distrital do então PPD em Faro, a convite do Dr. Joaquim Magalhães, meu reitor no Liceu de Faro, onde leccionava e onde integrava a primeira comissão sindical de professores eleita em liberdade. Quase solitariamente (nessa altura era moda no Algarve ser-se do PC, do MDP ou do PS) iniciei o PPD em Albufeira. Precisava de alguém com grande capacidade política, oratória e didática para vir falar a Albufeira numa sessão de esclarecimento sobre o PPD. Desloquei-me à nossa sede em Lisboa para essa finalidade. Como muitas vezes sucede, quando dá trabalho e não dá notoriedade as pessoas encolhem-se e desculpam-se com compromissos já assumidos. Com o Prof. Dr. Marcelo Rebelo de Sousa aconteceu exactamente o contrário. Disponibilidade total. Ele que tinha, como era conhecido, uma agenda muitíssimo mais preenchida do que outros. E foi. E falou para as poucas pessoas presentes como se estivesse a falar para centenas. Com empenho total. Inteligentíssimo e brilhante, como sempre. Guardo sempre como bem imperecível o prazer que me deu e o que aprendi na conversa de horas que tivemos na varanda da casa de meus pais nessa noite. É daí que vem o conhecimento que tenho dele. Do seu carácter. Da sua social-democacia. Da sua abnegação para com o nosso partido. Da sua cidadania. Por tudo isso, entristeceu-me a tristeza que hoje era legível no seu semblante. Acredito, como desde há trinta anos, nele. Naturalmente que uma pessoa com uma inteligência, com a sua capacidade, com os seus conhecimentos, com a sua abnegação ao partido, com a sua cidadania activa, uma pessoa que sempre sobressai, acaba por criar antocorpos naqueles que sabem não o conseguir igualar, naqueles que têm consciência que ele é a melhor pessoa para fazer com que o nosso país progrida e se torne num espaço de liberdade e de consciência. E não eles.
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