Hoje em dia quando se ouve falar em fundamentalismo, associa-se-lhe quase imediatamente o adjectivo islâmico. É o fruto dos tempos e deriva, naturalmente, da predominância que esse fundamentalismo tem tido nos meios de comunicação, fruto de acções extremistas, quase sempre não recomendáveis. Há, porém, outros fundamentalismos, quer religiosos, quer políticos. Depois da queda do muro de Berlim, do fim dos regimes comunistas e seu fundamentalismo na enormíssima maioria dos países chamados de Leste, da aceitação da democracia parlamentar pela maioria dos países do mundo como o modelo que melhor serve os cidadãos, seria de esperar entrar-se num período de paz e com condições para a prosperidade dos países e dos povos. As batalhas a serem vencidas já não seriam fundamentalmente ideológicas, mas sim de conseguir existência digna para os cidadãos do mundo, acabando com a miséria, com a fome, eliminando o que resta de atentados contra os direitos do Homem no nosso planeta.
Isto era o que se deveria esperar. Tem-se assistido, porém, a algo de diferente. Para além do já referido fundamentalismo islâmico, por vezes com consequências tão trágicas, outros aumentaram de intensidade. Veja-se, por exemplo, os avanços de ideologias fundamentalistas derivadas do nazismo ou do fascismo, tão evidentes hoje em dia em alguns países da nossa Europa civilizada; veja-se as correntes ultra-conservadoras, onde se misturam ressaivos dessas mesma ideologias, se bem que mascaradas de roupagem democrata, como é o caso do “neo-conservadorismo”, de que Bush é tão somente a ponta do iceberg; veja-se o fundamentalismo de algumas igrejas ditas evangélicas, um dospilares em que se apoia neste momento o partido republicano da era de Bush para ganhar estas próximas eleições; veja-se até o fundamentalismo crescente de sectores da própria igreja católica. Isso tornou-se mais uma vez visível nesta polémica tornada pública ontem sobre a possível destituição do reitor do santuário de Fátima, com o pretexto de nele se ter realizado acto religioso hindu e por o Dalai Lama aí ter podido orar. Aquilo que pareciam ter sido actos de abertura, de inteligência, de reconciliação, de ecumenismo, são apontados por essas minorias como desvios da doutrina e do funcionamento das instituições católicas. Não nos devemos esquecer que dentro da própria cúria romana sempre existiu uma corrente fundamentalista, muitas vezes determinante para certas decisões deste pontificado. Veja-se, por exemplo, a influência enorme do cardeal Radzinger sobre o actual pontífice. Nunca, porém, como agora os ataques efectivos aos resultados do Concílio Vaticano II parecem ter ido tão longe. Com base num fundamentalismo. Todos eles, de esquerda ou direita, políticos ou religiosos, são atentores das liberdades e da consciência humana. Por isso mesmo, não-fundalisticamente, reprováveis.

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