Há coisas aparentemente absurdas. Uma delas é o meu relacionamento com livros escritos por amigos ou com temas que me são muito, muito próximos. Adio a sua leitura. Como que se isso pudesse profanar algo de sagrado. Depois, quando a inicio, interrompo por longos e indefinidos períodos o prazer de a fazer. É o que se passa com os livros de Mahi BineBine. Livros magníficos, como também o são as suas pinturas. Com estas, porém, o mesmo não se passa. Vejo-as, revejo-as em minha casa. Diariamente. Deixo-me fundir em cada pincelada. Com os seus livros, contudo, é diferente. Como se fossem demasiado essenciais para a normalidade de cada hora. Aguardo sempre o momento o adequado. Um momento abstraído da poluição da vida. É que não são somente livros. Foram pensados, criados e escritos por Mahi. Meu Amigo e irmão eterno.
O mesmo se tem passado com um livro não escrito por ele, mas que eu teria sempre desejado ou pensado que o deveria ter sido, certamente a seu modo. Um livro cujo conteúdo faz parte da vida de um seu irmão. Um livro cujo conteúdo faz parte da sua família. Um livro cujo conteúdo também faz parte da minha vida. Não porque eu faça parte dele. O essencial do seu conteúdo, porém, muito antes de ter sido escrito, passou, anos após ano, a integrar-me.
Meses atrás, numa livraria de Lisboa, quando vi a sua capa e o seu título a minha respiração parou. Não sabia da sua existência. Algo me disse imediatamente o que ele conteria. “Cette Aveuglante Absence de Lumière” de Tahar Ben Jelloun. O nome de Aziz na dedicatória confirmou o que era desnecessário. De imediato o comprei. Passou a fazer parte do meu espaço visual diário. A sua leitura, porém? Sempre adiada.
Quando saiu a tradução portuguesa, de imediato a comprei. O mesmo compasso de espera para a sua leitura. Trouxe-a comigo para estas férias. Como se não me pudesse separar de algo que durante tantos anos preencheu profundamente as minhas preocupações.
Hoje estavam reunidas as condições para, finalmente, ousar começar a lê-lo. O impacto destas primeiras cinquenta páginas tem sido poderoso. Lá estão muitos factos que me eram conhecidos. Outros novos. Lá estão vivências de uma força inacreditável. Lá estão personagens reais que me são muito, muito queridos. Lá está uma mãe que tanto sofreu, que em vida tanto respeitei, venerei e que muitas vezes, se tal é possível, senti como se minha mãe também fosse.
É altura de interromper a sua leitura.
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