Na teorização artística ou sua explicação há geralmente uma tendência para complicar as coisas: terminologia rebuscada, linguagem só totalmente entendível por “insiders”. Há, porém, também excepções. Aqui um exemplo, de que, com a devida vénia, transcrevo um pequeno excerto (um outro dia farei o mesmo em relação a uma comparação entre Van Gogh e Toulouse-Lautrec) de autoria de Faya Ostrower:
“No conteúdo expressivo formulado por Mondrian reina indubitavelmente um clima de tranquilidade. Composta por áreas retangulares, a imagem como que define a essência de um espaço idealizado e reduzido praticamente à condição de pura extensão. Os elementos visuais são desdobrados nas suas feições estáticas, quase isentas de movimentação: superfícies retangulares, linhas horizontais e verticais e, na cor, as três primárias, vermelho azul e amarelo, também definindo espaços bidimensionais. O ritmo é introduzido através de intervalos, ou melhor, através de diferentes aproximações ou afastamentos entre os componentes, formulando tensões espaciais diversas e, assim, os diversos tempos dos intervalos. É uma visão austera, de grande contenção emocional, na qual o artista tenta eliminar qualquer aspecto que possa parecer subjetivo, qualquer ênfase ou até mesmo nuances de sensibilidade.
Contrastando com a atitude de recolhimento de Mondrian, a Kandinsky importava exaltar o carácter dinâmico do viver e das transformações. É só acaompanhar em suas imagens o desdobramento formal de tantas curvas e diagonais – não há horizontes ou verticais que pudessem sustar o movimento visual – e a multiplicidade de cores contrastantes, para se captar de imediato a concepção de ser de Kandinsky, nessa explosão exuberante de energias.”
Faya Ostrower
(Faya Ostrower, “Acasos e Criação Artística”, Editora Campus, 4 edição, Rio de Janeiro, 1999)

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