Foi uma simples coincidência. No voo de Salvador para Recife li algo sobre esta ilha. Não que já não tivesse a ideia de um dia a vir conhecer, mas mais tarde. Em Recife alterei os meus planos (vantagem de quem viaja sozinho e que, por vezes, sabe desprogramar compromissos impeditivos) e resolvi fazer três paragens novas antes de chegar a Fortaleza. Só duas noites e dois dias. Valeu a pena. Porque me habituo a vários ambientes. Porque não procuro luxos e mordomias. Porque , embora não sendo um fanático da natureza, respeito-a e deixo-me gozar o seu prazer. E Fernando Noronha é exactamente isso: Natureza.
Não vou fazer um encómio desta ilha. Por duas razões: A primeira porque na verdade ela só se adapta a pessoas que não sejam turistas medianamente exigentes, dadas algumas precaridades turisticas locais, a segunda é porque com os nerlandeses que ali conhecera (ilha propícia a se travarem conhecimentos, já que pouco ou nada mais há para fazer fora das horas dentro das águas tansparentes com sabor a golfinho e tubarão) estabeleceramos, por inicitiva deles, um “pacto” : não dizer muito bem da ilha, de modo a que a mesma continuasse fora da massa turística que destruiu lugares como, por exemplo, o Algarve e outros.
O pouco tempo que aí estive, possibilitou-me de novo saborear convívio com pessoas interessantes e o prazer de pela segunda vez na vida comer bife de tubarão (a primeira vez tinha sido no ano anterior na ilha tailandesa de Ko Samui, no ambiente mil-e-uma-noitiano das areias nocturnas de Chaweng. Não, aqui não me importo de dizer o que penso, pois quantos serão os mortais lusitanos que se darão à maçada de mais de um dia de voos e aeroportos só pelo sabor a orientais anos sessenta acrescidos de internets e demais tecnologias práticas?).
O referido pitéu, embora preparado de modo diferente e, por isso mesmo, com outro gosto do que a memória tem, continua a ser uma delícia. A prova disso é o facto de até os neerlandeses (povo na generalidade pouco arreigado a aventuras em usos e costumes alimentares) terem ousado comer. Ofereci-lhes uma pequena especialidade que são os pasteis de tubalhau. Tubalhau?! Mas que coisa é essa?
Pois bem, trata-se, nem mais nem menos, de tubarão preparado como nós preparamos o bacalhau, seco ao sol, posto de molho, esfiapado e confeccionado como pequenos bolinhos de...tubalhau.
Pois é. A curta estadia entretanto tinha chegado ao fim. No terraço da pousada das andorinhas um jovem casal madrileno-canarino, com quem momentos antes conversara, entretinha-se agora a dormir-ler. Experimentem que deve ser agradável! Quase me faz lembrar uma frase de Manuel Teixeira Gomes que dizia gostar de dormir numa biblioteca pois lhe dava sono mais culto. Se a frase não for exactamente esta, o sentido é-o.
E por aqui me fico, indo-me.



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