É hábito só comprar jornais ou revistas que me garantam um mínimo seguro de boa informação. Somente no barbeiro ou no café dou uma vista de olhos nas outras publicações lá existentes. Acontecem, porém, surpresas, felizmente com raridade. Esta manhã, sentado num terrasso com o oceano por fundo, na companhia de excelentes amigos neerlandeses em férias albufeirenses, folheei a revista Pública do passado dia 23. Uma fotografia de página inteira atraiu a minha atenção, dada a minha admiração pelo país com ela relacionado e respectiva cultura, assim como pela companhia com que nesse momento saboreava a tranquilidade de um sol esplendoroso: a fotografia da raínha Beatrix dos Países Baixos. Eis senão quando leio, em caracteres “bold” ( não tenho medo de utilizar de quando em vez palavras de outras línguas directamente ligadas ao uso cada vez maior da informática no nosso dia a dia): “Os monarcas não são um obstáculo ao funcionamento dos sistemas políticos democráticos. Podem é prejudicá-los por questões de imagem ou escândalos de corrupção, como aconteceu no ‘caso Agusta’ relacionado com o marido da raínha Beatriz da Holanda”. Achei estranhíssimo e inicialmente só me concentrei na palavra Agusta. Teria sido uma confusão simples com um outro qualquer caso de outro país. Fui no entanto dar uma espreitadela à referida passagem no contexto do artigo e o que lá leio ultrapassa toda a imaginação. O escândalo teria sido protagonisado pelo “marido da raínha Beatriz, Klaus, que morreu recentemente, recebeu luvas para ajudar a empresa a vender helicópteros neste país”. Aí desatei a rir, pois a desinformação era completa. A única pessoa da casa real neerlandesa envolvida num escândalo semelhante, se bem que diferente, tinha sido o príncipe Bernardo, marido da raínha Juliana, pai da raínha Beatriz. Ele foi na altura exemplarmente castigado pelo Parlamento dos Países Baixos por haver suspeição de ter aceite contactos menos claros da parte da Lockead (daí o nome de ‘caso Lockead’) de modo a garantir a escolha dos F16 para renovação da frota da força aérea neerlandesa. O príncipe Claus nunca se viu envolvido em nenhum escândalo, bem pelo contrário. Sempre ouvi dizer que o chamado ‘caso Agusta’ se teria passado no país da actual capital administrativa da UE. Ou será que a autora do texto ainda pensará no tempo em que grande parte da actual Bélgica fazia parte dos Países Baixos setentrionais, situação que terminou em 1839 com a criação do novo país independente chamado Bélgica? Um dos meus companheiros desta manhã agradabilíssima chamou-me a atenção para o facto de ter reparado que no mesmo artigo, por baixo de uma foto do príncipe herdeiro Willem-Alexander e de sua esposa Máxima, havia referência ao “parlamento de Amsterdão”, algo que, naturalmente, não existe. Faz parte da cultura geral de qualquer pessoa, sobretudo de um europeu e inquestionavelmente de um/a jornalista, saber que a capital oficial dos Países-Baixos é Amsterdam, onde se encontra o palácio real principal, mas que a sede de governo, o Parlamento, o Senado, a residência da raínha, assim como o seu palácio de trabalho se encontram em Haia. Isto bastou para eu nem me dar ao trabalho de ler o resto do artigo. Seria perder tempo com tanta desinformação. Num jornaleco qualquer uma inverdade também qualquer não tem importância. O mesmo não se passa, ou não se deveria passar, com um órgão de informação sério.
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