Hoje morreu a princesa Juliana. Muitos se perguntarão: Quem?
Juliana foi raínha dos Países Baixos entre 1948 e 1980. Uma raínha excepcional. Uma raínha amada pelo seu povo como poucos chefes de estado na História do mundo. Uma raínha humana e pacifista. Uma raínha progressista, como ela própria se qualificara um dia. Uma raínha que no momento em que anunciou ao povo que acabara de abdicar das suas funções oficiais em favor de sua filha Beatrix, a actual raínha, acrescentou que a partir daquele momento passaria a ser somente princesa. Uma raínha com forte personalidade e um coração de ouro. Uma raínha simples e inconvencional. Numa entrevista disse um dia que o protocolo e o convencionalismo eram seus inimigos naturais. Uma raínha que gostava de andar de bicicleta, mesmo em visitas oficiais pelo país. Uma raínha que preferia o contacto com o povo do que através de intermediários oficiais. Uma raínha que detestava a pompa e circunstância que habitualmente pertenciam às suas funções. Uma raínha que disse detestar poder ser considerada conservadora e antiquada. Uma raínha que tantas vezes se sentava na relva a falar com gente comum. Uma raínha que uma vez, subitamente, interrompeu uma visita a um mercado, por estar permanentemente rodeada de segurança e de jornalistas, que lhe impossibilitavam o contacto com os vendedores, com o povo. Não fora para aquilo que viera ali. Deu meia volta e deu por teminada a visita. Uma raínha que passou por enormes crises na vida. Uma raínha que, ainda princesa herdeira, durante a ocupação dos Países Baixos, aceitou, por razões de segurança de Estado, exilar-se durante cinco anos no Canadá, enquanto o seu marido, príncipe Bernhard, e a sua mãe, raínha Wilhelmina, se mantinham em Londres para colaborar na resistência. Uma raínha que durante a as inundações catastróficas de 1953 não se poupou a incomodidades para estar junto dos seu povo em sofrimento. Uma raínha que nos anos subsequentes à ocupação nazi, teve a enorme tarefa de ser a mentor da reconstrucção de um país destruído durante esses anos de trevas. Uma raínha que nos anos cinquenta lutou com problemas de consciência, nomeadamente quanto à pena de morte. A consciência dela, contra a pena de morte, venceu e o condenado de então viu a sua pena de morte transformada em prisão perpétua. Uma raínha que, contra a opinião do marido, tentou educar as filhas como gente comum. Não foi este o único problema que teve por causa dele, príncipe Bernhard, hoje ainda vivo. Um dos maiores foi quando em 1976 estalou o escândalo Lockeed. Bernhard deixara-se subornar pela Lockeed para que esta empresa americana (ele era pró-americano ferrenho) se garantisse da compra dos seus F16 pela defesa neerlandesa. Juliana defendeu o marido perante o governo como uma leoa, acabando por aceitar um castigo simbólico para ele (proibição de até ao fim da vida usar qualquer uniforme militar, o que para ele foi e continua a ser enorme castigo). Ela era pacifista. Ele era militarista. Pacifista, mas lutadora pelos seus princípios, pelos seus ideais, pela sua família, pelo seu povo. Uma raínha que nunca fugiu aos problemas. Desde o momento em que escolheu para marido um aristocrata alemão, na altura em que na Alemanha mandava Hitler. Passando pelo período terrível da ocupação dos Países Baixos pelos nazis alemães, com deportação e assassinato de judeus e homossexuais.Passando Passando pelo período em que ela teve como conselheira pessoal Hofmann, uma pacifista, pessoa que Bernhard, conservador, detestava. Passando pelo período de contestação ao casamento da sua filha Beatriz com um antigo soldado dos exército hitleriano, o príncipe Claus. Passando pelas inúmeras ausências de Bernhard de casa e do país. E por tantos outros problemas com que a vida a confrontou. Uma raínha que escrevia ela mesma os seus discursos, aceitando com relutância qualquer correcção por mínima que fosse. Uma raínha que ajudou, mais do que ninguém, à criação de uma ligação fundamental entre o povo neerlandês e a sua casa real. Uma raínha com um coração quente. Bom. Uma raínha que disse procurar em cada pessoa com quem falava, antes de e sobretudo, o seu semelhante. Uma raínha que acima de tudo na vida procurou maior compreensão para com o ser humano. Uma raínha que se o não fosse, gostaria de ter sido assistente social dedicada aos diminuídos e aos sofredores. Uma raínha que o soube ser, como muito poucas outras. Uma raínha que depois de o ser, escolheu voltar a princesa. E como tal morreu. Recordada com sentida saudade por todo o povo dos Países Baixos. E não só.

Que belo elogio, não sei quem era ela, mais fiquei com muita vontade de conhecer alguém que não se enebria pelo tão cobiçado poder. É raro.
Gostaria de saber mais sobre o seu reinado.
Gostaria de quando eu me for, alguém fale sobre mim com tal intensidade e orgulho.Desejo ser merecedora disso, respeitando as devidas proporções, pois ao que eu sabia não seria rainha nem princesa.
Silvia Moura
Posted by: Silvia Moura | April 03, 2004 at 09:46 PM
belíssima homenagem e, para nós, estupenda lição de história.
muito obrigado. abraço
Posted by: innersmile | March 21, 2004 at 09:25 PM