Há dois pilares incontornáveis da sociologia e da antropologia cultural brasileira. São eles, respectivamente, Gilberto Freyre e Câmara Cascudo. Todos os que fomos alunos desses grandes mestres portugueses que foram Vitorino Nemésio, Jorge Dias e Orlando Ribeiro, habituámo-nos a conviver com o pensamento sociológico e com grande parte da literatura de Gilberto Freyre. Só mais tarde contactei com as investigações etnológicas de Luís da Câmara Cascudo. Excelentes também. É interessante notar que ambos são nordestinos, Gilberto Freyre de Recife, Câmara Cascudo de Natal.
Vem isto a propósito de um livro que acabo de comprar, com o título de “Viagens ao Nordeste do Brasil”. O seu autor nasceu em Portugal, filho de pais ingleses. Em 1809, deixando a família em Portugal, viaja pela primeira vez para o Nordeste brasileiro na que seria uma das várias viagens lá, morrendo provavelmente em Recife por volta de 1920. O livro foi publicado em 1816, com o título de “Travels in Brazil”. Estes dados podemos encontrá-los no prefácio de Luís Câmara Cascudo à tradução brasileira, também da autoria do etnólogo natalense. Não se trata de um prefácio de escrita excepcional. Câmara Cascudo habituou-nos a textos muito mais brilhantes (as suas inúmeras anotações e comentários de rodapé aos dois volumes do texto de Koster têm, quanto a mim, essa qualidade e sabedoria extraordinária que lhe são peculiares), mas, mesmo assim, não resisto a transcrever uns excertos significativos do mesmo e, como complemento, uma pequenina passagem do livro de Koster.
“O depoimento de Koster é o primeiro, cronologicamente, sobre a psicologia, a etnografia tradicional do povo nordestino, o sertanejo no seu cenário”.
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“Em superfície e profundeza para a época, ninguém fixou a sociedade pernambucana, a sociedade dos fazendeiros do Nordeste, a psicologia do senhor do engenho, o mundo escravo, como Henry Koster”.
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“Mas também voam pássaros, abelhas passam, animais, árvores de porte, madeiras de lei para construção, remédios, bruxedos, bailes, danças fidalgas com minuetos e rondas indígenas derredor da fogueira, música sacra, música de bailado rico e, noite inteira, o bambolear dos negros ao surdo gemido dos urucungos. Alimentação, indumentária, organização social, aspectos das ruas e das cidades, caminhos e povoações, pretos, brancos, mamelucos, cafusos, curibocas, quilombolas, comerciantes, mulatos, escravos robustos ou senis, padres, donos de engenhos, vaqueiros, palhaços, dançarinos de corda, festas de igreja. Semana Santa, viagens, devaneio, cismas, anedotas, comentários, estatísticas, comércio, política, diplomacia, religião, profecia, tudo apareceu como indispensável aos olhos de Koster. E ficou no livro.
Dono de escravos, companheiro de conversas, padrinho de casamento, inimigo do tráfego e manutenção do regime cativo, Koster amou, defendeu e estudou o escravo com precisão e nitidez.”
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“Koster não ridiculariza os hábitos e tradições brasileiras. Nem mesmo auxilia ao nacional falastrão a doença de deprimir o ambiente. Compreende e explica e suas sugestões, nascidas do conhecimento direto e diário, são feitas em tonalidade amistosa, de companehiro da vida comum, radicado à terra, sem a ilusão da superioridade ou a imponente visão exterior da pátria que deixou.”
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“É um inglês nascido em Portugal e sempre se julga patrício de portugueses e brasileiros, ‘I belong to both, and whether in company of Englishmen, of Portuguese, or of Brazilians, I feel equally among my countrymen.’”
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“É esse Henry Koster que sonhei restituir à circulação intelectual do Brasil, no seu livro claro, ensopado no leite da ternura humana.”
Luís da Câmara Cascudo
“Um homem, chamado Nogueira, filho de uma negra ou mulata, com um dos primeiros homens da Companhia, era temidíssimo pela sua audaciosa conduta passada. Carregava as filhas da casa dos pais, pessoas veneradas na Capitania, matando os amigos ou parentes que se opunham aos seus atrevimentos. O homem fora finalmente preso. Amaro Joaquim [último Governador da região] queria fazê-lo executar, mas percebendo as dificulades criadas pela família que intercedia, mandou que o açoitassem. Nogueira disse que era meio fidalgo, homem nobre, e essa punição não lhe podia ser aplicada. O Governador então ordenou que só lhe fosse surrado um lado do corpo, para que o lado fidalgo não sofresse, devendo Nogueira indicar qual era o seu costado aristocrático. E, castigado dessa maneira, depois de haver permanecido muito tempo na prisão, foi desterrado, por toda a vida, para Angola.”
Henry Coster
(Henry Coster, “Viagens no Brasil”, vol. 1, pág. 98, 12ª edição, ABC Editora, Fortaleza, 2003)
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